Christian Villamide

24 de Janeiro a 28 de Março 2026

Christian Villamide nasceu e vive em Lugo, território onde rios se enroscam em vales húmidos, bosques persistem em silêncio e a paisagem se impõe como presença contínua. Esse convívio direto com o orgânico e o selvagem marcou decisivamente o seu imaginário: desde a infância, o contacto com pedras, terra e plantas foi não apenas brincadeira, mas forma de escuta, o princípio de uma prática para quem a natureza nunca é mero tema, mas condição de existência.

A sua formação sensível coincide historicamente com o auge da land art, movimento que, a partir dos anos 1960, transformou o território em espaço de pensamento. Antes de Villamide nascer, Richard Long desenhava A Line Made by Walking (1967); depois, Agnes Denes criava Map Projections, convertendo a cartografia da Terra em geometria crítica. Ambos são referências estruturais no percurso do artista galego, não pelo gesto monumental, mas pela capacidade de cruzar filosofia, ecologia e intervenção site‑specific.

Ainda assim, Villamide afasta-se tanto das escalas épicas da land art quanto do ativismo direto da chamada arte ecológica. O seu interesse não é propor soluções, mas examinar a relação paradoxal que mantemos com o natural, uma relação simultaneamente afetiva e instrumental. A sua investigação desloca o olhar da paisagem para o modo como a construímos, como a domesticamos e a projetamos nas arquiteturas do quotidiano. Cada série de trabalhos é um capítulo dessa reflexão prolongada, marcada por coerência e profundidade: mais que objetos isolados, as suas obras são fragmentos de um pensamento que se acumula em camadas, como o tempo na rocha.

Essa tensão entre o visível e o oculto, entre o natural e o técnico, tem ressonância nas escolhas materiais, ferro, chumbo, aço, madeira, argamassa, e ecoa no aforismo heraclítico que acompanha o artista: “A natureza gosta de se esconder.” Sob essa frase, Villamide lê o ato de criar como gesto de revelação e reconhecimento, não a representação da natureza, mas o desvelar das formas humanas de a compreender e controlar. O seu trabalho expõe, assim, a fragilidade do vínculo sensorial e emocional que nos liga ao planeta: a paisagem já não é um horizonte exterior, mas um campo de tensões entre matéria, memória e cultura.

É nesse contexto que nasce a exposição Well‑being Scenery. O título joga com a ambiguidade entre “bem‑estar” e “cenário”: dois conceitos que, na vida contemporânea, se tornaram indissociáveis. Na busca incessante por conforto, segurança e equilíbrio, o ser humano multiplica dispositivos de controlo, arquitetónicos, tecnológicos e simbólicos, para afastar o que lhe escapa. Criamos ambientes regulados, zonas de proteção, jardins artificiais e estéticas do “verde” que reproduzem uma ideia de natureza higienizada, subordinada à lógica do conforto. Villamide interroga essa construção. Pergunta até que ponto esse well‑being é real ou apenas uma cenografia para mitigar o medo perante o imprevisível. A sua obra observa as transformações que resultam da intervenção humana: a fragmentação do território, a domesticação da paisagem, a substituição do orgânico pelo sintético. Ao fazê‑lo, devolve à paisagem a sua dimensão ética e emocional, um espaço onde coexistem fascínio e responsabilidade.

Well‑Being Scenery propõe, portanto, repensar a natureza não como cenário do humano, mas como continuidade dele. Por meio de materiais industriais e gestos contidos, Villamide reintroduz a ideia de que toda construção é também um gesto de escuta: um modo de reconhecer o lugar que ocupamos num sistema vivo do qual nunca estivemos realmente separados. A exposição convida a uma pausa, a perceber que, por baixo da aparência controlada do mundo que erguemos, pulsa ainda a força daquilo que nos ultrapassa e nos sustenta.

CURADORIA Cíntia Ferreira
DESIGN Viviana Mesquita
FOTOGRAFIA Xosé Reigosa

Adapted Topographies

Ferro, plástico, espuma, esmalte sintético

230 x 170 x 40 cm

Miragem Seccionada

Aço corten, espelhos, betão e laca acrílica

45 x 115 x 21,5 cm

Placebo V

Argamassa, esmalte, material plástico, ferro corten, esmalte, cimento de alta resistência, ceras e processo de oxidação.

35 x 25 x 36 cm

Construcción Analoga

Aço inoxidável e metal

12 x 30 x 13 cm

Adaptive Landscape I

Aço inoxidável e alumínio

36 x 70 x 30 cm

Fluorescent Mountain

Placa de chumbo, folha de chumbo e tinta acrílica lacada

31 x 22 cm

TERRENOS Y CULTIVOS  IV

Aço corten, esmalte, chumbo, ceras e processo de oxidação

60 x 26 x 43 cm

TERRENOS Y CULTIVOS  V

Aço corten, esmalte, chumbo, ceras e processo de oxidação.

240 x 170 cm